Normalmente evito falar ou discutir temas relacionados com religião. Evito conscientemente porque sei que é um tema que, assim como o futebol ou a política, pode suscitar rupturas graves entre amigos chegados, entre casais ou mesmo familiares próximos. Assim, a maior parte das vezes quando percebo que se vai entrar nesse campo mantenho uma distância de segurança e se o interlocutor insiste digo mesmo que prefiro não abordar esse tema.
Escrevi há tempos um texto sobre discussões vãs e que não trazem nada de construtivo. Discutir convicções religiosas é sempre opção de quem não quer chegar a lado nenhum. Elas existem e devem ser respeitadas. Ponto.
Tenho amigos que definem discotecas da forma mais suja e imoral possível. Aceito, respeito e reservo-me o direito de discordar. Que dizem que o Carnaval é a festa da carne, onde acontecem as maiores orgias regadas a muito álcool e drogas. Aceito, respeito e reservo-me o direito de discordar.
Perguntar-me-ão: Mas se dizes que não falas sobre religião porque é que estás a falar agora? Simples: pisaram-me num calo.
Um coleguinha do meu filho a quem eu convidei com todo o amor e carinho para a festa de anos do Tiago disse à professora que não tinha gostado da festinha porque o pai disse que cantar “é pike é pike é pike” não é coisa de Jesus.
Ora bem, se eu respeito as convicções religiosas de cada um, então que respeitem as minhas também. Gosto de Carnaval, gosto de discotecas, gosto de rir, dançar e cantar e sei que isso também se faz em muitas casas religiosas e não aceito que me venham dizer que eu vivo sem Jesus na minha vida ou que façam uma criança pensar isso de mim ou da minha família que muito prezo.
Acredito num Deus que é amor, que é perdão e que não faz diferença entre os seus filhos e não em um deus que afasta pessoas só porque estão felizes, só porque cantam e dançam e festejam o facto de o filho ter completado mais um ano de vida.
Peco porque festejo o aniversário do meu filho? O que dizer dos pastores que roubam dinheiro dos fiéis, que são ‘flagrados’ em vídeo a ensinar aos outros pastores como sacar dinheiro de pessoas desesperadas? O que dizer dos padres que abusam de menores?
Cantamos o “é pike” e ainda cantamos “com quem será que o Tiago vai se casar”, brincadeirinhas herdadas dos brasileiros, a mesma nação deste pai que agora não participa nas reuniões de escola porque se vai falar do Carnaval, que deixou de praticar a sua capoeira porque é contra Jesus. Disse quem? Foi Jesus que disse que não aprova a capoeira?
A capoeira é uma dança, é uma modalidade desportiva, é uma herança histórica e cultural de que nos devemos orgulhar porque foi a forma original encontrada pelos escravos das senzalas brasileiras que com muita ginga conseguiram driblar a superioridade dos colonizadores armados.
Tenho cá para mim que Jesus ainda volta aqui para dizer alto e em bom som, (talvez até partilhe na Net para que todos fiquem a saber) que não foi ele quem disse que rir, dançar, cantar ou praticar desporto são formas pecaminosas de agir contra Deus.
Contaram-me a história de um Deus que ceava e bebia vinho com os seus apóstolos, mesmo com aquele que sabia de antemão que o trairia. Falaram-me de um Deus que impediu uma prostituta de ser apedrejada e julgada por homens que aparentemente mais santos pecavam muito mais com essa tentativa cruel de assassinato.
Falam sobre Ele, homens que se escondem atrás de vestes bordadas a ouro e jóias caras e contam a história de um Deus que se vestia de forma simples e calçava sandálias. Um tanto contraditória a forma como vivem alguns deles nos dias de hoje.
Mas, esta é a minha opinião e ninguém é obrigado a concordar, no entanto, reservando-se o direito de discordar deve aceitar que eu pense de forma diferente e aja de forma diferente porque de outro modo não passa de um radical, extremista e preconceituoso.